sexta-feira, 28 de junho de 2013

Âmago

Esses dias, recordando as histórias que a mamãe conta sobre minha infância, percebi o quanto sinto falta daquele tempo. Não, não são as atuais responsabilidades que causam essa saudade. Aliás, apesar delas me consumirem bastante, as amo de verdade. Acredito que a partir de uma certa idade se torna incômodo não ter outra ocupação além de estudar. Entrei na universidade com 17 anos,  ainda jovem, porém senti logo a necessidade de ter um estágio (como a maioria dos universitários) pra não ter que continuar pedindo tudo pros meus pais, até porque eles sempre fizeram o possível e o impossível por mim. As responsabilidades que tenho hoje não são um peso, são bênçãos! Elas permitem que eu ajude quem me ajudou a vida inteira.

Estudei em um dos melhores colégios de Belém, tradicional, religioso, etc. Meus pais ralaram muito pra que eu tivesse uma base educacional sólida como diamante. Só havia um problema nisso, ínfimo até, perto da intenção divina de me proporcionar bons estudos. O fato de eu pertencer a uma classe social bastante inferior a da maioria dos outros estudantes, podia resultar em duas situações: eu poderia ter feito de tudo pra ser igual aos meus colegas de classe, poderia ter estranhado a diferença de realidades e me tornado uma garotinha antipática e inconformada OU poderia ter ficado sozinha. E graças a Deus foi o que aconteceu. Sofri bullying na escola e nessa época ninguém sabia o que era isso. Infelizmente eu era tímida demais pra me defender diante de acusações de coisas que não tinha feito. "E lá vai a Ingrid de novo pro castigo, injustamente". Mas por incrível que pareça, eu era feliz sozinha. E segui assim até a vida me presentear com uma grande amiga, que mais tarde se tornou minha irmã (May, minha bênção ♥).

Apesar de todas as provações, eu gostava mesmo de ficar com meus pensamentos. Tinha um costume (da série Costumes Estranhos da Ingrid) que preservo até hoje. Sentava em um local reservado e ficava  imaginando como era a vida de cada pessoa que passava. Sempre via passos tão seguros e me questionava se eram o que aparentavam ou se eram como os meus, no fundo tímidos e temerosos. Buscava nos olhares o reflexo de seus cotidianos, o que traziam no coração. No fim das contas, eu me sentia naturalmente deslocada perto dos outros, mesmo quando eram simpáticos e tentavam me "socializar".

Cultivei poucos, mas grandes amigos nessa vida. Construí e retomei laços que me acompanharão sempre.

A saudade da infância vem da forma como eu via e sentia o mundo. Uma visão imatura, mas imaculada. Distante do que as experiências em sociedade trouxeram e foram capazes de manchar. Antes, eu abria a janela do quarto e conversava com os pássaros, com o vento, com a "mãe-natureza". Não sabia a quem me dirigia quando inventei esse nome, não imaginava um rosto, não tinha um corpo físico, mas era alguém que me escutava e me entendia melhor do que qualquer cabeça pensante encarnada aqui na terra.

Saudade me define bem. Parte de mim vive no presente, lutando pra conquistar o futuro. A outra, vive no passado, sentindo falta do que já fui e recuperando constantemente minha essência. 
É esse retorno que permite meu renascimento. E esse ato de renascer não me torna uma pessoa nova a cada dia, mas oferece a segurança necessária pra que a vida não me arraste pra longe de mim.









domingo, 23 de junho de 2013

22 anos ♥

Hoje, dia 23 de junho eu completo o que chamam de 22 primaveras. Ao contrário de algumas pessoas que conheço, sempre fico feliz nessa data. Não tenho problemas em ver meu corpo físico envelhecer, afinal sempre acreditei que a verdadeira juventude está na alma de cada um. 
Não que eu não seja vaidosa, pelo contrário! Mas cada idade reserva um apanhado de coisas boas que devem ser vividas plenamente. É aquela história "cada coisa tem seu tempo".
Uma coisa interessante: não faço questão de presentes. A única coisa que sempre fiz questão de ganhar nessa data, é a presença de todos que amo. Vontade que só se fortaleceu depois que perdi alguém muito importante pra mim: minha tia.

No mais, acredito que uma vida como a minha é privilégio de poucos. Tenho o essencial: amor, amigos e uma família incrível. Pessoas a quem devo minha eterna gratidão por tudo que me ensinaram nesta vida e a quem dedico este post. 
Agradeço também a Deus e aos meus guias, que tanto trabalho têm em me conduzir nesta caminhada, me alertando sobre perigos que não preciso passar, me poupando de tantas coisas ruins, me ajudando a ter conformação com tudo que foge do meu entendimento e me dando esperança pra que eu consiga colorir todos os meus dias nesta existência terrena.



"Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa, 
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha, 
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras, 
O pião do garoto, que vai a parar, 
E oscila, no mesmo movimento que o da alma, 
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino."


Álvaro de Campos (Heterônimo de Fernando Pessoa)




sexta-feira, 21 de junho de 2013

Passado vivo

Passaram-se oito anos, mas algumas coisas ainda permaneciam imutáveis dentro dela. 
Questionava como pode o tempo, que se diz amigo e solidário, não resolver as questões advindas do coração? 
Ela seguiu sua vida, como manda o bom senso. Se relacionou com outras pessoas, nunca perdeu o foco da família e dos estudos, no entanto, caminhava sem rumo, tentando fugir dos pensamentos que ainda lhe acometiam, mas sem sucesso.
Agora era capaz de compreender os motivos que o levaram a tomar uma decisão que mudaria o curso de sua vida inteira, mas ainda assim, não achava justo que as escolhas de outra pessoa a desviassem do único caminho que ela considerava certo. Ou pelo menos o único que ela seguiria sem oscilar.

Aprendera que a vida se apresenta de uma forma distinta pra cada ser humano e à ela cabia a conformação de algo que não tinha controle. Cabiam os sonhos repetidos durante quase uma década. Cabiam as lembranças boas, apesar de quase sempre buscar as ruins como estratégia para alcançar a tão sonhada indiferença, porém sem êxito. A cada passo sem sucesso, ela recordava dos momentos felizes ao lado dele.
Aliás, não era apenas à ele que a saudade remetia, mas ao que ela era e sentia naquela época. 

Nunca mais foi capaz de viver tão plenamente um sentimento. Nunca mais amou alguém daquela forma. Afinal, não há nada maior que um laço construído em muitas vidas, nada mais verdadeiro.
Acreditando que o início de novos laços fosse a solução ideal para seu caso, ela se aventurou mundo afora. Apesar de ter conhecido pessoas incríveis, todas as tentativas foram frustradas. Os laços se desmanchavam com facilidade diante de pormenores e a medida que se desfaziam, seu coração fazia questão de lhe lembrar que mesmo diante de grandes adversidades, aquele primeiro laço continuava inabalável.

Alguns a tentaram convencer de que isso ocorria por ter sido o primeiro. Outros, porque foi a única vez que ela não determinou o fim. Mas no fundo ela sabia que essas explicações não correspondem à realidade. Só ela conhece a profundidade desse sentimento resguardado durante anos. Escondido, protegido com todo carinho, como se ainda fosse recém-nascido. 

Ela nunca se acostuma com a presença dele, mas ainda assim o leva consigo como naquela época, onde tudo era novo, mágico, puro, sincero e incrivelmente real.
Em busca de um refúgio, ela escreve timidamente em seu diário tudo que guarda no coração, desde sempre.
Sua sobrevivência nasce da esperança de que um dia o caminho certo se apresentará, pra que ela possa segui-lo sem oscilar.
Talvez ela esteja destinada a amar a mesma pessoa a vida inteira. Talvez o tempo apenas a tenha ensinado truques para aprender a conviver com um sentimento inevitável. 

Dawned

Há muitos anos que eu não me sentia tão plena assim. Apesar de todas as preocupações do dia-a-dia (Trabalho de Conclusão de Curso tem sido a mais recorrente) tenho feito o universo conspirar a meu favor.
Aliás, sempre tive motivos pra agradecer a Deus pela vida que tenho. Quando pequena, meus pais lutaram bastante pra proporcionar a mim e ao meu irmão (único irmão, mais velho) tudo que eles não tiveram. Hoje, eu tenho condições pra lutar por meus objetivos. E tem sido assim que devagar tudo foi tomando um rumo, confesso que inesperado, mas certo.

Quem me conhece de verdade, sabe que não preciso de muito pra ser feliz. Sou o tipo de pessoa que se contenta com uma janela de onde se aprecie a natureza, um diário, um banho de chuva, pés descalços na grama, música (muita música) e o principal: as pessoas que amo por perto.

Tenho um mundo particular, onde eu realmente resido. A explicação pra quem não compreende a minha forma de levar a vida é bem simples: vivemos em mundos distintos. Esse foi o jeito que encontrei pra estar aqui, nesse plano de expiação, sem cometer um desatino por me sentir deslocada, por não conseguir encarar certas coisas com a mesma naturalidade que os outros. Talvez seja uma forma de fugir, talvez seja apenas uma forma de se adaptar sem se deixar corromper pelos males terrenos.

Meu espírito é solitário. Por vezes, preciso de um momento pra conversar comigo mesma, ouvir a voz do silêncio, colocar as ideias e sentimentos em ordem, sonhar um pouco, pedir conselhos aos meus guias, fechar os olhos e respirar ar puro.

Foi criando meu próprio lugar, que aprendi que a felicidade só é plena quando independe das outras pessoas ou dos acontecimentos exteriores. Como alguém almeja a felicidade se a coloca na responsabilidade de outro ser humano que, por natureza, é passível de erros? Para ser real, ela deve nascer e fincar raízes no coração de cada um. Portanto, cabe a nós fazer nosso mundo amanhecer todos os dias.



"Sou guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações”

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

(Esse foi o primeiro texto que postei no meu Tumblr, achei que seria uma boa apresentação pra esse blog)