Estudei em um dos melhores colégios de Belém, tradicional, religioso, etc. Meus pais ralaram muito pra que eu tivesse uma base educacional sólida como diamante. Só havia um problema nisso, ínfimo até, perto da intenção divina de me proporcionar bons estudos. O fato de eu pertencer a uma classe social bastante inferior a da maioria dos outros estudantes, podia resultar em duas situações: eu poderia ter feito de tudo pra ser igual aos meus colegas de classe, poderia ter estranhado a diferença de realidades e me tornado uma garotinha antipática e inconformada OU poderia ter ficado sozinha. E graças a Deus foi o que aconteceu. Sofri bullying na escola e nessa época ninguém sabia o que era isso. Infelizmente eu era tímida demais pra me defender diante de acusações de coisas que não tinha feito. "E lá vai a Ingrid de novo pro castigo, injustamente". Mas por incrível que pareça, eu era feliz sozinha. E segui assim até a vida me presentear com uma grande amiga, que mais tarde se tornou minha irmã (May, minha bênção ♥).
Apesar de todas as provações, eu gostava mesmo de ficar com meus pensamentos. Tinha um costume (da série Costumes Estranhos da Ingrid) que preservo até hoje. Sentava em um local reservado e ficava imaginando como era a vida de cada pessoa que passava. Sempre via passos tão seguros e me questionava se eram o que aparentavam ou se eram como os meus, no fundo tímidos e temerosos. Buscava nos olhares o reflexo de seus cotidianos, o que traziam no coração. No fim das contas, eu me sentia naturalmente deslocada perto dos outros, mesmo quando eram simpáticos e tentavam me "socializar".
Cultivei poucos, mas grandes amigos nessa vida. Construí e retomei laços que me acompanharão sempre.
A saudade da infância vem da forma como eu via e sentia o mundo. Uma visão imatura, mas imaculada. Distante do que as experiências em sociedade trouxeram e foram capazes de manchar. Antes, eu abria a janela do quarto e conversava com os pássaros, com o vento, com a "mãe-natureza". Não sabia a quem me dirigia quando inventei esse nome, não imaginava um rosto, não tinha um corpo físico, mas era alguém que me escutava e me entendia melhor do que qualquer cabeça pensante encarnada aqui na terra.
Saudade me define bem. Parte de mim vive no presente, lutando pra conquistar o futuro. A outra, vive no passado, sentindo falta do que já fui e recuperando constantemente minha essência.
É esse retorno que permite meu renascimento. E esse ato de renascer não me torna uma pessoa nova a cada dia, mas oferece a segurança necessária pra que a vida não me arraste pra longe de mim.
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